quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Partideiros reunidos: é pau, couro e só! - Por Renato Martins

Há uns dois meses atrás, mais ou menos, tivemos o privilégio de receber de presente do grande Simas um lindo texto falando sobre a nossa Rua do Ouvidor.

Hoje quem nos dá esse prazer é nosso grande amigo Renato Martins. Se eu chamá-lo de músico, talvez ele não goste, porém vale lembrar que ele toca no Terreiro Grande. Um cara super talentoso e cuidadoso, compositor raro e bebum de primeira.

Aí vai o texto:

" Partideiros reunidos: é pau, couro e só!

“Partido alto é coisa séria!”, já dizia o mestre Aniceto. Ele dizia, lembrando-se dos seus tempos de garoto, em que ele não podia se aproximar da roda dos partideiros sem levar um puxão na orelha e uns bons safanões: “Isso não é coisa pra você, garoto. Vai brincar, vai...” A curiosidade então era cada vez mais aguçada, por conta de tanto mistério. Maior ainda era o respeito. Não pode, não pode. Mas, não tardou até que ele saísse de trás da porta para o centro da roda. Logo, seu talento tornou-se inquestionável perante os bambas que ele mais respeitava. Aniceto então saiu dos cueiros, direto para a imortalidade. Foi o maior de todos os tempos na opinião dos seus rivais diretos e de seus amigos mais orgulhosos.
O partido alto é uma vertente do samba praticamente extinta. Se formos pensar como Aniceto pensava, então o partido alto já se extinguiu faz tempo. Uma das características do partideiro, era a de inventar os refrões na hora, não só os versos. E isso, certamente, ninguém hoje em dia faz. Ainda existem diversas formas de partido alto, cada uma com a sua particularidade. E isso também está cada vez mais raro. E se formos pensar na dança do partido alto, bem, aí é melhor nem começar. A dança frenética das escolas de samba, roubou as características singulares de cada passo do partido. Hoje, amoladinho e corta-jaca, são uma coisa só. Aliás, qualquer passo de samba, é uma coisa só. Parece até que todo mundo fez aula com o mesmo professor. O samba ganhou as academias também. Vejam, só! O importante é que ta todo mundo sambando, não é?
Mas o que é que aconteceu com a figura do partideiro, essa figura que, no mundo do samba é a mais completa, porque sabe versar, além de sambar e compor em outras linhas? E não é todo sambista que versa. Mas todo partideiro, samba.
Mas tem gente mandando a bronca pelas rodas de partido, eu sei que tem. Gente preocupada em resgatar aquele espírito nada ingênuo que se tinha antigamente, e mais que isso, gente empenhada em renovar sem deturpar o que os velhos mestres nos legaram. Fico na torcida para que apareçam novos partideiros, novos versadores, novos criadores desse gênero tão especial que está tão em baixa.
Oxalá!

Abração! "

E pra quem pensa que acabou, é só clicar AQUI para baixar o partido " Inteligência " do grande Aniceto, que está no disco Olé do Partido Alto. Volume 2

"Inteligência" é o samba de Aniceto que mais demonstrou sua genialidade. Esse gênero, por ele criado, era que ele chamava de partido de pergunta e resposta. Ou seja, participação direta das pessoas que rodeiam a roda. Não há indícios de que outro partideiro tenha feito isso, com tamanha criatividade.

É isso aí, espero que gostem.

Abraço a todos!

2 comentários:

Ricardo Brigante disse...

Meu camarada e irmão Renato, você como sempre com a caneta afiada. Só você mesmo parceirinho é capaz de elaborar um texto tão direto como este. Partido Alto é coisa muito séria!!!

Juliano disse...

Belo texto. Este universo que vem sendo retratado no blog é fascinante. Sempre que vou atrás de mais informações tenho ótimas surpresas.

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